O campanólogo

Minha paixão por sinos começou em meados de 1979.

Tinha 5 anos de idade e morava no número 161 da avenida Doutor José Higino, no bairro da Mooca, em São Paulo.
Da porta de casa, podia-se avistar a face frontal da torre da igreja São Pedro Apóstolo.
Certa vez, atraído pelo belo som melódico de seus sinos, fui até a porta, olhei para a janela da torre, e ali permaneci, ouvindo a melodia e contemplando os movimentos de um dos sinos que soavam.


Naquele momento me senti muito bem, uma sensação de prazer e alegria.
Para mim, aquela fusão entre som e imagem era uma bela obra de arte onde os movimentos do sino pareciam dar vida à torre.


Logo esta contemplação se tornou minha maior diversão, e esta diversão virou rotina.
Sempre, momentos antes dos sinos começarem a soar, eu já estava à porta, olhando fixamente para a torre e aguardando o início do espetáculo.


De domingo então, era uma festa, pois eram realizadas 3 missas no período da   manhã, sempre anunciadas pelo som dos sinos, e assim sendo, eu tinha diversão    garantida.
  Naquele tempo, houve também um período que guardo com muito carinho em que    pela manhã, bem cedo, minha mãe me levava ao lado da torre e esperava comigo pelo    dobrar dos sinos.

Ali, ao lado da torre e junto a minha mãe, eu podia observar o movimentar dos sinos   por um ângulo diferente. Agora pela janela lateral direita da torre, tendo assim uma    nova imagem e o som mais intenso.

No destaque, o campanólogo, em 1979 com sua turma do jardim da infância


Lembro-me bem do dia 30 de junho de 1980, o qual fora um dia especial e único na história dos sinos do Brasil! Exatamente ao meio-dia, para anunciar e saudar a chegada do Papa João Paulo II ao Brasil (evento histórico por se tratar da primeira visita oficial de um Papa ao nosso país), os sinos de todas as igrejas católicas dobraram, repicaram, falaram, cantaram sem cessar durante um longo período, e eu, é claro, a postos na porta de casa a assistir ao show de nossos amigos. Sem sombra de dúvidas, naquele início de tarde de 1980, ocorria por todo o país a mais bela e emocionante manifestação da história do Brasil!
O campanólogo em 2015, no campanário da antiga Sé do Rio de Janeiro, junto ao antigo sino de 1621


Além dos sinos e seus sons, toda a estrutura do campanário me chamava atenção.
Os suportes de madeira que sustentavam os sinos, seus contrapesos, e as diversas imagens que eu tinha ao avistar aquela estrutura a partir de diferentes locais e distâncias.

Ficava imaginando como aquilo tudo funcionava e querendo um dia conhecer, ver de perto aquele sistema em ação, presenciar como se tocavam os sinos.

Meu amor pelos sinos é natural e espontâneo, pois, diferente de outras coisas que gosto, nunca nada, nem ninguém tentou me influenciar a gostar deles, mas foram eles próprios que me chamaram e me convidaram a apreciar sua arte.

Eu aceitei ao convite, gostei, disse sim, e fiquei.